segunda-feira, 4 de abril de 2016

RETEXP - Rede Tecnológica de Extensão Popular

1- Quem somos
A RETEXP - Rede Tecnológica de Extensão Popular é um movimento articulado entre os campi que constituem a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica constituídos pelos Institutos e Centros Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IF's e CEFET's), a partir da unidade de ações coordenadas, envolvendo  estudantes,  técnico-administrativos e docentes e dos núcleos e Grupos de Pesquisa e Extensão sob a perspectiva do aperfeiçoamento e ou desenvolvimento de ações integradas entre as instituições públicas de ensino tecnológico e as comunidades e populações carentes.  Integrando o ensino, a pesquisa e a extensão, a RETEXP objetiva tornar o conhecimento científico e tecnológico uma ferramenta com potencial de transformar a vida dessas comunidades, visando superar o ciclo vicioso da dominação e alienação política, da subserviência, da desigualdade e da miséria social determinados pelo modo de produção capitalista e perpetuados pelas relações sociais vigentes.
A proposta de trabalho da RETEXP articula-se a um contexto mais amplo marcado pela constituição dos Institutos Federais em 2008, o que possibilitou à Rede Federal de Educação Tecnológica uma nova perspectiva em sua trajetória de mais de cem anos. A Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, instituída pela Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008 (BRASIL, 2008a), enfatiza um modelo de ensino enquanto política pública de integração regional e transferência de tecnologia social, algo novo, até então, na história da educação profissional no Brasil. Ela estabelece dessa forma a importância estratégica que as instituições de educação profissional e tecnológica devem possuir como fomentadoras de ciência e tecnologia a serviço dos interesses públicos, devendo estar voltadas às resoluções dos problemas mais latentes e das contradições conjunturais ou regionais que impedem o desenvolvimento humano, e perpetuam situações de desigualdade, atraso e dependência.
       Essa nova relação possui como parâmetros éticos e pedagógicos a construção de um domínio crítico e consciente do conhecimento científico e tecnológico desenvolvido pelas instituições públicas de ensino bem como a produção e apropriação desses conhecimentos pelas comunidades envolvidas através de programas de extensão. Com isso se possibilita dialeticamente tanto a aproximação e efetiva relação entre as instituições de ensino públicas e a classe trabalhadora quanto garante a essas o protagonismo na busca de superação de suas atuais condições de opressão e exploração. Dessa forma, a Extensão Popular aponta para o fortalecimento de uma educação pública, de qualidade e popular que, ao mesmo tempo em que constrói uma identidade entre o movimento popular e o ambiente escolar, fortalece os laços políticos e o sentimento de pertencimento e unidade entre ambos.
    Não se pode esquecer que o modo de produção capitalista estimula a instrumentalização do saber e de todo o conjunto orgânico que estrutura o funcionamento escolar de modo a favorecer os interesses privados do mercado, potencializando a acúmulo de capitais, a ampliação do Poder Econômico e Político e a disseminação de teorias que pretendem justificar e reproduzir, em nível da consciência, a manutenção da atual ordem societária. A luta por uma sociedade emancipada e que supere as contradições que nos aproximam cada vez mais da barbárie passa pela disputa,  consciente e consequente, de todas as potencialidades emergentes que o processo de desenvolvimento tecnológico e científico nos proporciona, em especial a Extensão Popular em suas articulações com o Ensino e a Pesquisa.
       Por isso a RETEXP compreende que a articulação e promoção de projetos de extensão popular devem estar vinculadas a uma prática pedagógica que possibilite a essas comunidades uma análise crítica sobre o contexto conjuntural ao qual estão inseridos e bem como às determinações sócio-históricas que alimentam as principais contradições vivenciadas, dimensões essas que se desdobram na luta cotidiana para a superação das carências imediatas sem perder o horizonte emancipatório frente ao metabolismo do capital, produtor e reprodutor das mais profundas carências humanas.
        O diálogo e o respeito em relação aos saberes populares, a troca de experiências,  a valorização da parceria com os movimentos sociais, o estudo teórico da realidade brasileira e sobre o sentido da Tecnologia Social, a avaliação crítica das expertises desenvolvidas, a construção de uma análise crítica que supere o assistencialismo ainda presente nas políticas públicas sobre extensão e o compromisso em potencializar os interesses históricos da classe trabalhadora efetivando uma consciência crítica e transformadora, devem ser parâmetros constantes nas reuniões, nos projetos e nas ações extensionistas dos membros da RETEXP.

2- A organização
     A RETEXP é organizada nacionalmente, através da articulação de membros associados em cada Estado, que desempenham coletivamente funções específicas na estrutura da organização da REDE e definem áreas de atuação, parcerias, metas e atividades de formação e integração com outros movimentos e instituições que trabalham a questão da Educação e Extensão Popular.
     A cada dois anos a RETEXP realizará encontro nacional, para a escolha de uma diretoria colegiada executiva, podendo os coletivos regionais, realizar encontros anuais para a celebração de seminários, atividades de formação, troca de experiências, avaliação dos projetos de extensão e ou pesquisas sobre o assunto, celebração de convênios com instituições públicas, desenvolvimento de projetos acadêmicos ou articulação com outros movimentos congêneres etc.

3- Por que uma rede tecnológica de extensão popular?
A criação da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica garante um ambiente educacional diferenciado das universidades, em especial por sua verticalização do ensino, que a torna apta a ofertar desde cursos no ensino fundamental até as pós-graduações. Apesar dessas e outras importantes diferenças, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, a exemplo das universidades, deve fundamentar sua prática pedagógica no tripé que articula ensino, pesquisa e extensão. Certamente que cada um desses fundamentos será desenvolvido de uma forma diferenciada pela Rede Tecnológica. O diferencial estrutural, nesse caso, será justamente aquilo que se entende por educação tecnológica ou politecnia.
Não se pode esquecer que diversas concepções e práticas sobre o que deve se constituir como educação tecnológica podem ser encontradas na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Essas concepções e práticas incluem desde aquelas focadas na “formação de mão de obra” para o mercado até outras que restringem os cursos integrados, por exemplo, a uma etapa preparatória para os exames de acesso à universidade. Por isso, é preciso ter bem claro o que entendemos por educação tecnológica para que ela esteja articulada a uma extensão também tecnológica, conforme a proposta de constituição da RETEXP.
A educação tecnológica, tal como a entendemos na RETEXP, deve buscar suas bases em uma educação pelo trabalho, sendo este entendido como o fundamento ontológico do ser humano (Marx, 1996). Por sua vez, devemos entender o trabalho como o permanente e necessário metabolismo entre humanidade e natureza responsável pela produção e reprodução dos meios de vida e que, no decorrer da história humana, assume diferentes configurações através da articulação de forças produtivas e relações sociais de produção. Mais do que isso, a concepção de educação tecnológica deve ser capaz de reconhecer que, no processo histórico, tais configurações acabaram assumindo formas cada vez mais alienadas e alienantes de maneira que, no capitalismo, a educação deixa de se dar “pelo trabalho” e se torna cada vez mais “para o trabalho”, ou seja, como elemento de reprodução de mão de obra para a exploração pelo capital.
Se essa tem sido a concepção educacional hegemônica, ela, contudo, é permanentemente confrontada com processos educacionais que objetivam suplantar o caráter alienante da educação para o trabalho e para o capital. Esse confronto é desenvolvido através da educação tecnológica que
ligada ao desenvolvimento das bases de conhecimentos que se vinculam ao processo de produção e reprodução da vida humana pelo trabalho, na perspectiva de abreviar o tempo gasto para responder às necessidades (essas sempre históricas) inerentes ao fato de o homem fazer parte da natureza e de ampliar o tempo livre (tempo de escolha, de fruição, de lúdico e de atividade humana criativa), no qual a omnilateralidade pode efetivamente se desenvolver (Frigotto, 2012).
Dessa forma, a educação tecnológica parte do reconhecimento do caráter alienado das relações sociais sob a sociabilidade do capital e aponta para sua superação em uma sociedade emancipada. Reconhece ainda que, mesmo que os processos educacionais hegemônicos sejam aqueles que garantem a reprodução do modo de produção capitalista, é possível, através da educação tecnológica e da formação pelo trabalho, ir desenvolvendo uma práxis que contribua efetivamente – e junto com outras processualidades de luta emancipatórias - para a superação das relações sociais fundadas na exploração dos trabalhadores pelo capital e, consequentemente, potencialize o desenvolvimento humano em sua ominilateralidade:
O terreno próprio do desenvolvimento humano omnilateral (em todas as suas dimensões) do caráter radicalmente educativo do trabalho, dos conhecimentos, da ciência e da tecnologia somente terão a sua efetiva positividade e a capacidade de dilatar as qualidades e potencialidades humanas quando as relações sociais classistas sob o capitalismo forem superadas (Frigotto, 2012).
Tendo em vista o já referido tripé do ensino, pesquisa e extensão e ao pensarmos a dimensão emancipatória da educação tecnológica somos levados a compreender que somente uma extensão popular pode ser coerente com tais processos emancipatórios. Nos propomos a estabelecer as bases de uma extensão que se articula com os processos sociais de forma a explicitar as contradições do capital e apontar para sua superação. Ou seja, uma extensão popular deve ser capaz de tornar clara para seus participantes que as lutas por direitos desenvolvidas em suas realidades locais se articulam a uma realidade maior de produção de injustiças representada pelo metabolismo destrutivo do capital. E, mais do que isso, que a efetiva garantia de justiça permanente só será possível com a superação do capitalismo. Ou seja, a extensão popular é aquela que se articula à dimensão emancipatória do processo educacional em sua totalidade para além do capital.
Por conta disso, a RETEXP deve se articular de modo solidário e simultaneamente crítico junto aos movimentos sociais no sentido de problematizar os efetivos alcances de suas lutas particulares em uma sociabilidade capitalista. A permanente tensão entre lutas cotidianas e processos emancipatórios será um desafio para os educadores-extensionistas populares, que deverão ser capazes de articular as diferentes resistências ao capital com a dinâmica emancipatória. Esses e outros desafios estarão sendo colocados à RETEXP em sua atuação.

4- Desafios
São grandes os desafios para quem pretende colocar em prática uma extensão emancipatória nos marcos da sociabilidade do capital. As contradições e a força hegemônica do metabolismo do capital exigem um esforço continuado que deve ser nosso fundamento praxiológico tendo por horizonte histórico possível a emancipação humana. Certamente é esse o diferencial e a contribuição da RETEXP a todos aqueles envolvidos em projetos de extensão.
Reconhecemos a importância dos projetos de extensão que têm possibilitado a superação dos diferentes problemas nas comunidades em que são implementados, sejam através de ações cotidianas ou mesmo através do estabelecimento de políticas públicas. Esses projetos estão permeados pelas forças de luta das trabalhadoras e dos trabalhadores em busca de uma vida humanamente mais realizada, ainda que nos marcos da sociabilidade capitalista. Porém, entendemos que as mais profundas carências humanas são decorrentes  justamente do metabolismo do capital que, contraditoriamente, produz riqueza e pobreza enquanto dinâmica das relações sociais. Ou seja, ainda que importantes, grande parte dos projetos de extensão desenvolvidos acabam por não se posicionar teórica e praticamente, de modo crítico, diante da permanente produção de desigualdade social decorrente do processo de valorização do capital, o que certamente limita seu potencial emancipatório à apenas a emancipação política.
Reconhecer e atuar em uma dinâmica em que as contradições presentes nas conquistas e derrotas na luta imediata não nos levem a perder o horizonte da emancipação humana é certamente desafiador. Mas é também nossa contribuição à extensão popular.
Ainda apontando os desafios, é preciso estarmos atentos à nossa institucionalidade Primeiramente por atuarmos em um contexto de educação tecnológica que deve ser capaz de articular a extensão popular com o ensino e a pesquisa. E isso tendo em perspectiva a progressiva ameaça – e, em alguns casos já consolidada – de privatização dos espaços públicos e mercantilização da educação. É desafiador não se deixar cooptar pela lógica produtivista que caracteriza a apresentação de projetos para finaciamento público, o que inclui desde entes estatais até as fundações. Em segundo lugar, mas não menos importante, é preciso destacar que a RETEXP e seus integrantes atuam em um espaço institucional próprio que não deve, em hipótese alguma, ser confundido com aquele ocupado pelos movimentos sociais em geral. A proximidade dos objetivos não deve nos levar a assumir as tarefas históricas que são daqueles movimentos, o que nos leva a reconhecer a importância dos processos de formação popular de base por eles já vivenciados e desenvolvidos.
Por fim, é preciso não temer as contradições e a complexidade dos processos histórico-sociais, o que é ainda mais importante para aqueles que se colocam na luta pela emancipação humana. A RETEXP pretende ser uma contribuição nesse processo.

5- Bibliografia:
BRASIL. [COMPLETAR] 2008.

FRIGOTTO, G. Educação politécnica. In: CALDART, Roseli; PEREIRA, Isabel; ALENTEJANO, Paulo; FRIGOTTO, Gaudêncio (Orgs.). Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro/ São Paulo: EPSJV / Expressão Popular. 2012.

MARX, K. O capital – crítica da economia política. Volume 1, tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1996.